segunda, 17 dezembro 2012 15:44

História de Almancil

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História de Almancil

Almancil (ou Almansil) é uma freguesia portuguesa do concelho de Loulé, com 62,69 km² de área e 11 136 habitantes (2011). Densidade: 177,6 hab/km².

Freguesia de Almancil no Século XIX

Monografia do Concelho de Loulé - 1905 

Francisco Xavier d’Athaíde Oliveira 

 

“O padre Luiz Cardoso, que, no seu Diccionario Geographico foi sempre minuncioso em informações, diz de Almancil apenas o seguinte: “Aldêa no Reino do Algarve, comarca de Tavira, termo e freguezia de S. Clemente da villa de Loulé.” Já d’antesos visitadores do Mestrado de S. Thiago, que por ali deviam ter passado na sua visitação à Ermida de Farrobilhas, nem a Almancil se referiram; o que faz crer que em 1565 nem Ermida ali havia.

Dizem os antigos que effectivamente nos princípios da Monarquia Portuguesa ali existia apenas uma pequena casa de venda ou hospedaria, de origem árabe, e por tanto chamada Almançal, que significa hospedaria.

D’esta freguezia, que em 1841 ainda o não era, diz João Baptista da Silva Lopes:

“Da freguezia de Loulé cortou a Junta do Distrito de 1836… para formar a freguezia de Almancil, denominada S. Lourenço dos Matos de Almancil, larga porção de terrenos, que se juntaram à antiga freguezia de S. João da Venda, que é suprimida, sendo substituída por aquela.”

No entanto refere-se à egreja de S. Lourenço de Almancil, mas sem ainda ser sede de nova freguezia, pela maneira seguinte:

“Esta egreja é notável pela belleza com que estão pintados os azulejos, de que todas as paredes estão revestidas, e todos os passos da vida do santo, e pela delicadeza do altar, cujas almofadas são de alabastro preto e de varias cores, colhido ali mesmo. Tem de rendimento oitenta mil reis, bons paramentos, casas sufficientes, que podem servir para a residência do parocho; pelo que a todos os respeitas foi bem formada esta nova freguezia, que no decreto de 6 de novembro de 1836 vem mencionada em a nova divisão administrativa.”

É possível, pois, que o nome de Almancil venha do árabe Almançal, como também é possível que os azulejos, que hoje adornam o bonito templo dáquella freguezia sejam os mesmos que adornaram a egreja de farrobilhas a que nos referimos, quando escrevemos da freguezia de Loulé. No entanto, (o que não destroe a nossa suposição) é certo que a tradicção é constante em affirmar que os azulejos foram fabricados próximo do sitio e dentro da área da nova freguezia.

No Mappa geral estatístico relativo ao anno económico, de 1864-1865 figura Almancil com 400 fogos, sendo a derrama arbitrada ao pároco 200$000 reis, pé de altar e mais rendimentos paroquiaes, 130$000; derrama 70$000 reis, secretario 4$200 réis, cobrador 4$000, total da derrama 78$200 réis.

Modernamente a freguesia de S. João dos Matos d’Almancil tem progredido muito.

Ao seu actual pároco, o muito reverendo Joaquim da Cruz Guerreiro, devemos as seguintes informações:

O 1.º termo que se encontra lavrado, quando a egreja de S. João da Venda era matriz da freguezia tem a data de 22 d’Abril de 1658 sendo cura o P.e Sebastião de Faria Pessanha. Em 1849 a sede d’esta paroquia foi mudada para a egreja de S. Lourenço, sendo augmentada com parte da antiga freguezia de S. Clemente de Loulé, ficando assim denominando-se a nova freguezia: S. João Baptista e S. Lourenço de Almancil. Começou assim a denominal-a o P.e Prior d’aquelle tempo Filipe António de Brito, desde o termo 61 de 1887, porque antes do termo 61 o nome dado era S. João Baptista d’Almancil.

Pelo rol da população feita em 1904 vê-se que esta freguezia tinha então 815 fogos com 3.503 almas: 1780 do sexo masculino, 1723 do feminino.

É esta freguesia constituída por casaes, mais ou menos separados entre si, sem constituir em aldeia ou povoação. Tem a grande propriedade do Ludo, que pertenceu à família Coelho de Carvalho, de Faro, e hoje dividida entre partes, quasi todas possuídas pela família Christovão d’esta freguezia. Uma parte d’aquella propriedade pertence ao snr visconde do Cabo de Santa Maria, herdada de seu sogro Ventura Coelho de Carvalho. Tem ainda outra grande propriedade conhecida pelo Muro, formada pelos terrenos salgados, e hoje pertencente à frima Mathos e Silva de Lisboa. Outra propriedade importante, que fora possuída pelo Morgado Joaquim Filippe de Lemos Lobo Freire Pantoja – denominada o Pontal, é hoje possuída pelo filho, do mesmo nome, residente em Faro.

Dista esta freguezia da sede do concelho e comarca 8 quilometros, e 10 quilometros das sedes do districto e diocese (Faro).

A estrada mais próxima da sede da paroquia é a chamada real e tambem do littoral, n.º 78, de Faro a Sagres. Depois a que vae de Faro a Loulé, atravessando esta freguezia do sul a norte, e passa a 200 metros da sede da paroquia. Ha ainda outra camararia, que parte do sitio d’Almancil e vae entroncar na de Faro a Loulé, proximo das Azenhas. Dentro da freguezia há um ramal, feito pelos donos da Quinta do Ludo, que sae do sitio do Troto e vae terminar no sitio do Ludo; ainda mais outro ramal, a maior parte feito por particulares e sae do sitio de Almancil (estrada real n.º 78) até à Fonte Coberta, havendo tenção de a levar mais adiante por ser de grande utilidade. Finalmente outro ramal existe: que parte do sitio de Alem a entroncar na de Faro e Loulé no sitio do Eseval, atravessando a via-ferrea, que percorre esta freguezia de Nascente a Poente, com Estação Almancil Nexe, que dista 200 metros da sede da paroquia.

Ainda existe a antiga egreja de S. João da Venda, que nada tem de recomendável, embora tivesse sido sede da antiga freguezia. A actual egreja paroquial de S. Lourenço de Almancil é notável pela belleza dos azulejos magníficos de que está forrada interiormente, tanto as paredes, como abobada e zimbório, sendo o corpo da egreja, nas paredes lateraes, diidido em 3 arcos lateraes, não abertos, e onde, em boa pintura, se admiram os passos principaes da vida do Santo. Pena foi que se perpretasse o vandalismo notado por quantos visitam esta egreja, de furar dois destes arcos para lhes introduzir dois nichos, um para S. Miguel, outro para N. S. do Rosário, estragando-se um ou dois dos passos referidos. A capella-mór é de talha dourada, bem feita, e em bom estado de conservação. O altar-mór é todo de fina pedra, as suas almofadas são de alabastro preto e de varias cores, colhido ali proximo. A sacristia é forrada de azulejo até meias paredes e tem arcas de boa madeira e muito bem trabalhada em talha e gavetões puchados a argolas de bronze.

As festas principaes são a de S. Lourenço, que não tem dia certo.

Havia uma feira em dia 24 de Setembro, mas lembraram-se mudal-a e fazel-a no dia da festa; por isso vão talvez designar dia certo para a celebração da festa, que, naturalmente, se realizará quando os grandes negociantes de cortiça voltarem com os seus trabalhadores.

Passa por esta freguezia o ribeiro chamado do Almancil, que nasce em S. Braz de Alportel, e vem passar junto da egreja de S. Lourenço, e atravessando a freguezia, norte e sul, passa pela ponte antiga e atravessa a estrada real, indo desaguar, depois de passar à ponte do Ludo, mandada fazer por D. Francisco Gomes de Avelar, venerando arcebispo-bispo do Algarve, em 1810, no mar, tendo atravessado tambem a grande propriedade do Muro.

As principaes producções desta freguezia são as comuns ao Algarve: figo, amêndoa, alfarroba, azeite, cereaes e legumes, etc.

A festa principal que se costuma realizar nesta freguezia é a do seu Orago S. Lourenço. E não tem dia certo, porque se espera que os preincipaes lavradores e negociantes de cortiça e trabalhadores tenham recolhido à freguezia.

A freguezia é sadia, e apenas se notam as febres, mais ou menos indemicas, devido talvez à estagnação das aguas do ribeiro. Felizmente na actualidade está a freguezia menos sujeita a essa doença, porque se tem trabalhado na limpeza do mesmo ribeiro.

Há nesta freguezia apenas uma escola official para as crianças do sexo masculino, pois que até hoje não se tem podido conseguir a criação de uma escola official para as crianças do sexo feminino. Para atenuar este mal alguns proprietários mandam as suas filhas á escola por elles paga. Por muito tempo esteve esta escola no sitio de Almancil; actualmente essa escola está no sitio do Valle d’Egoas, que é mais populoso.

Tem esta freguezia um cemitério, que dista da matriz uns cento e concoenta metros e foi mandado construir em 1877, no tempo em que paroquiava esta freguezia o Prior Francisco de Paula Mendonça.

Confronta esta freguezia pelo nascente com a freguezia de Santa Barbara de Nexe, e Conceição de Faro, pelo sul com S. Pedro de Faro e o Oceano, poente e norte com S. Clemente de Loulé.

A freguesia actual de S. Lourenço dos Mattos d’Almancil ou S. João dos Mattos d’Almancil compõe-se de toda a antiga freguezia de S. João da Venda distribuída pelos sítios: Sitio da Igreja, Troto, Esteval, Caliços, Alem, Casas e Nave, Barro de S. João, Outeiro, Arneiro, Mata Lobos, Valle da Venda, Torre, Ludo e Muro, e dos seguintes sítios desmembrados da freguezia de Loulé: Sitio d’Almancil, comprehendendo Garrão, Galvão e Ancão; do sitio das Pereiras, comprehendendo Poço Quebrado, Monte Estaco e Areias de D. João; do sitio das Ferrarias, que comprehende Caiados, Serro d’Afar, Palmeira Benta e Vargens; do sítio de Moinhos, que comprehende Gondra e Farrobilhas; do sitio de Barreiros Vermelhos e do Valle d’Egoas, que comprehende Serro do Mocho, Monte d’Olival e Barrocal e do Vale Formoso.

Monografia do Concelho de Loulé - 1905 

Francisco X. D’Ataíde de Oliveira 

Evolução da população entre 1879 e 1909 (rol das confissões de Almancil)

Ano

Fogos

Total

Homens

Mulheres

Crianças -7 anos

1879

 

1882

968

914

 

1880

 

2304

1195

1109

431

1881

 

2344

1202

1142

409

1882

 

2189

 

 

 

1883

557

2247

1134

1113

318

1884

553

2229

1134

1095

261

1885

578

2211

1191

1020

 

1886

602

2243

1099

1114

 

1887

638

2268

1152

1116

 

1888

682

2720

1347

1373

549

1889

672

2871

1474

1397

600

1890

668

2911

1490

1421

608

1892

671

2992

1539

1453

620

1893

681

3002

1551

1451

590

1894

704

3082

1592

1490

691

1895

726

3170

1625

1545

741

1897

713

3039

1529

1510

762

1898

732

3148

1590

1558

874

1899

741

3154

1580

1574

823

1900

747

3393

1605

1788

1022

1901

756

3206

1644

1562

792

1902

789

3346

1798

1548

933

1903

808

3436

1750

1686

 

1904

815

3503

1780

1723

 

1905

823

3560

1815

1745

 

1906

848

3627

1840

1787

 

1907

854

3653

1847

1806

 

1908

855

3623

1835

1788

 

1909

855

3585

1790

1795

 

 

Igreja de S. João da Venda

 

As referências documentais mais antigas remontam aos príncipios do século XVI (Visitação da Ordem de Santiago ao Algarve 1517-1518). Nessa época era uma simples ermida dependente da Igreja Matriz de Santa Maria de Faro.

Era assim descrita em 1517: “Ermida de uma só casa. Na capela tem um altar de pedra e barro, e sobre o altar está um frontal de pano de linho com a imagem de São João pintada. A dita capela está coberta de telha vã. E as paredes são de pedra e barro e de taipa. O arco da capela é de tijolo. As portas da capela são novas e boas.

Tinha essa capela como bens : uma vestimenta de pano da India, nova e boa, duas galhetas de estanho novas, uma caldeira de água benta pequena e seu isope, uma lâmpada de cobre, um missal para todo o ano novo e bom.

A Capela tem também o seu adro em redor dela.”

Segundo parece a ermida tinha sido construída havia muito pouco tempo pela população local, pois tudo o que tinha estava em estado de novo.

Alguns anos depois, em consequência da sua elevação a sede de freguesia, foi construído um novo templo ainda de acordo com o formulário do gótico final.

A sua estrutura quinhentista, que se mantém hoje, compõe-se de nave única, sem transepto, duas capelas colaterais e cobertura de madeira no corpo da igreja. Ao longo dos séculos XVII e XVIII sofreu diferentes remodelações.

Merece referência neste templo, um notável retábulo dos finais do século XVI, curioso exemplar da talha maneirista no Algarve.

Salientemos também a existência de um pequeno núcleo de imaginária religiosa dos séculos XVII e XVIII do qual destacamos São Luís, imagem de grande devoção popular em honra do qual se promove anualmente uma grandiosa festividade.

De referir ainda o conjunto de várias telas pintadas outrora colocadas no retábulo.

 

A Igreja de São Lourenço

 

É uma igreja situada no sítio de São Lourenço, na freguesia de Almancil (Loulé). Datada de finais do séc. XVII, é devotada a Lourenço de Huesca.

Merece especial destaque o revestimento interior de toda a igreja por azulejos datados de 1730 e assinados por Policarpo de Oliveira Bernardes (importante elemento do ciclo dos mestres da azulejaria portuguesa (1695-1778) ilustrando diversos episódios da vida de S. Lourenço.

Lourenço de Huesca ou São Lourenço, foi um mártir católico e um dos sete primeiros diáconos (guardiões do tesouro da Igreja) da Igreja Cristã, sediada em Roma.

(Huesca ou Valência, Espanha, nasceu a 225? — morreu em Roma, 10 de agosto de 258)

 

São Lourenço era espanhol e foi levado à Roma pelo Papa Sisto II, também santo. Era uma época de muita perseguição à Igreja, mas ambos trabalhavam com destemor. O jovem, forte, bem humorado e angelical Lourenço foi feito diácono, um dos sete primeiros da Igreja em Roma. Era responsável pela administração dos bens da comunidade e distribuía esmolas.

Em 257, o imperador Valeriano, irritado com o forte crescimento da Igreja em todo império, pois tirava o povo do paganismo, sua religião, decretou captura e morte aos cristãos.

No ano seguinte Sisto II foi preso e decapitado. São Lourenço, que o acompanhou durante os quatro dias de sua prisão, queria morrer com ele. Momentos antes do martírio, com doçura e lembrando o Sacrifício Eucarístico, ele pedia: "Meu pai, para onde vais sem vosso filho? Para onde vai o Santo Padre sem o vosso diácono? Jamais oferecestes o sacrifício sem que eu vos acolitasse? Em que vos desagradei? Encontrastes em mim alguma infidelidade?"

Mas o Papa precisava dele vivo para distribuir os bens da Igreja com os pobres, pois bem sabia que breve ele também seria sacrificado: "Não te abandono, meu filho! Deus reservou-te provação maior e vitória mais brilhante, pois és jovem e forte. A velhice e a fraqueza fazem com que os carrascos tenham pena de mim. Mas daqui a três dias me seguirás."

São Lourenço cumpriu bem as ordens que recebeu: vendeu ouro, prata e os bens mais valiosos. Em seguida convocou os pobres, viúvas e órfãos e distribuiu-lhes tudo que havia arrecadado e o que não conseguiu vender.

O prefeito da cidade, ouvindo que o administrador da igreja tinha tomado tal atitude, não acreditou. Mandou que viesse até ele e exigiu que entregasse tudo para o luxo do imperador. Mas era tarde. Lourenço havia agido com rapidez, pois já esperava ansiosamente a hora de seguir também para seu martírio. Teve, entretanto, a ideia de dar uma lição ao prefeito. Pediu-lhe o prazo de um dia para juntar todos os bens valiosos de propriedade da Igreja.

No dia seguinte mandou convidar o prefeito à porta igreja para ir receber o tesouro. Lá estavam uma multidão de enfermos, surdos, cegos, paralíticos, desamparados e indigentes. E disse-lhe São Lourenço: "Eis os tesouros da Igreja: os míseros que levam com resignação a cruz de cada dia, carregam o ouro da virtude; são as almas prediletas do Senhor que valem muito mais que pedras preciosas."

O prefeito, tomado de ira, prometeu-lhe uma morte lenta e sofrida. Primeiro mandou acoitá-lo com crueldade, depois o colocou sobre a grade de assar carne. Mas São Lourenço, em serena paz, não se deixou tomar pelo medo e parecia não sentir nenhuma dor. Bem humorado, chegou a brincar discretamente com seu carrasco: "Se quiser, já pode me virar, pois este lado já está bem assado." 

Santo Ambrósio disse que seu rosto brilhava mais que o fogo, e que de seu corpo saia um perfume que enebriava a todos os presentes. São Leão Magno contou assim seus últimos momentos: "As chamas não puderam vencer a caridade de Cristo; e o fogo que queimava por fora foi mais fraco do que aquele que lhe ardia por dentro."

Seu corpo carbonizado foi sepultado no cemitério de Ciríaca, em Campo Verano, na Via Tiburtina, Roma.

A conversão do imperador romano, e assim de todo Império, algumas décadas mais tarde, é atribuída à história de seu martírio, que se espalhou por toda parte, e à sua intervenção, junto com os sacrifício de São Pedro e São Paulo, que ele tanto venerava. Constantino mandou construir a primeira capela onde hoje se encontra a Igreja de São Lourenço Extramuros, a quinta Basílica Patriarcal de Roma.

Em todo o mundo cristão, existem muitas igrejas dedicadas a este santo. Geralmente, as estátuas dele apresentam uma grelha (o instrumento que lhe causou a morte) e uma Bíblia nas suas mãos.

É comemorado no dia 10 de Agosto.

 

Igreja de S. Lourenço

O actual edifício começou a ser construído em 1722 no local de uma arruinada ermida seiscentista que invocava São Lourenço. “O primoroso templo, não pela grandeza, mas pelo ornato, asseio e magnificiência” – (Memórias Paroquiais de 1758) foi edificado como cumprimento da promessa feita pelos moradores do local que desesperados com a falta de água imploraram o patrocínio do Santo.

A construção e ornamentação da então designada Ermida de São Lourenço dos Matos ficou a cargo da respectiva confraria que tinha como Juiz protector o Dr. Manuel de Sousa Teixeira, Vigário Geral do Bispado do Algarve.

O templo teve como modelo a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Faro. Os irmãos Manuel e Antão Borges foram os responsáveis pela campanha de obras e consecutivo programa de decoração do interior da ermida.

A partir de 1849 com a supressão da freguesia de São João Batista da Venda e criação da freguesia de Almancil, a Igreja de São Lourenço passou a ser sede de paróquia.

A Igreja de São Lourenço, classificada como Imóvel de Interesse Público pelo decreto-lei n.º 35443 de 2 de Janeiro de 1946, representa uma valiosa expressão artística do barroco no Algarve.

 

A Igreja Matriz de São Lourenço, a jóia Barroca do património artístico de Almancil.

(Dr.ª Susana Carrusca)

No termo de Loulé, parte central de um Algarve ruralizado, a modesta Confraria de São Lourenço dos Matos sedeada num singelo templo crescera de importância sob a influência da tradição vernácula que atribuíra ao mártir e levita São Lourenço responsabilidade nas modelações milagrosas assim qualificadas a partir de 1722. O desenvolvimento da actividade da Confraria exprime-se em cores qualificadas pela acção singular do juiz Dr. Manuel de Sousa Teixeira, Vigário Geral do Bispado, signo emblemático da Diocese do Algarve, antigo ministro da Ordem Terceira de S.ão Francisco de Faro. Teria entrevisto o referido juiz o interesse de conversão e aproveitamento da monumental devoção ao Santo em primoroso agente difusor do sistema ideológico da Reforma católica da Diocese do Algarve. Exigia-se um laudatório reconhecimento ao Santo pelas acções milagrosas dos acontecimentos ocorridos e impunha-se adequar tal fenómeno de peregrinação aos objectivos coetâneos da militante ortodoxia do Catolicismo Tridentino. Motivos oportunos para a Confraria reivindicar uma renovação estética.

A Ermida de São Lourenço dos Matos de Almancil fora edificada segundo um preconcebido programa cenográfico de arte total ou seja delineara-se a concepção de uma austera caixa arquitectónica, filiada num chão panorama arquitectónico regional, pensada propositadamente para receber talha e azulejos. Descrevemos uma experiência estilística própria de uma arquitectura de âmbito provincial que concebeu o luxuosismo do interior eclesial como condicionante de uma vernacular estrutura de modelo longitudinal. Isto ficou provado pela proximidade cronológica existente entre a campanha de obras e a decoração interior do templo, pela confirmação da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Faro como protótipo da Ermida de São Lourenço dos Matos de Almancil, pelas tradições arquitectónicas da região. Para tal se contratara os irmãos Manuel e Antão Borges, mestre de azulejos e mestre de obras, que assumira a campanha de obras e o azulejamento. Recheara-se o templo com conjuntos que sistematizam o clímax grandioso dos géneros artísticos que representam: o revestimento deleitoso da talha de Manuel Martins, o maior entalhador do Algarve durante a época barroca e a azulejaria policarpiana que testemunha o galante ciclo dos mestres da arte de azulejar barroco elucidando como num meio artístico regional se tem acesso aos grandes artistas activos nos círculos de influência de uma arte cortesã. Vimos como os azulejos do templo constituem magníficos exemplares da mão e oficina de Policarpo de Oliveira Bernardes, tendo como modelo iconográfico a pintura azulejar de Carnide de Lisboa realizada alguns anos antes.

Verificámos como todas as circunstâncias históricas apontam para a atribuição da talha de Almancil, obra anónima, ao entalhador Manuel Martins. Fora ele que fizera o retábulo da Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo de Faro cuja semelhança formal com o da Ermida de São Lourenço dos Matos de Almancil é por demais evidente, tal como é da sua autoria a cornija da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Faro, modelo arquitectónico do templo de Almancil.

Concretizámos uma leitura iconológico-cultural interpretativa da obra de arte. A partir da análise da iconografia verificámos como todo o interior da Ermida convida ao seguimento de um percurso orientado que tem início nos painéis de azulejo do lado da Epístola, percorre todo o espaço azulejar, retábulo, cúpula e termina na abóbada da nave. Trata-se de um espectáculo cénico de pregação inspirado exclusivamente na biografia do mártir São Lourenço e destina-se, através da enorme riqueza simbólica dos elementos iconográficos, à proclamação das proezas e verdades morais e religiosas de uma vida cristã que se pretende levar a seguir. Comprovámos como São Lourenço de Almancil não fora apenas um objecto artístico de puro deleite visual, mas operativo instrumento de propaganda religiosa pós-tridentina destinado a delectare, docere e movere como supõe o ut rethorica pictura correspondente ao barroco. Tudo se fez através de um sermão imagético que se apresentava prestes a ser descodificado. Entendemo-lo como sermão pela contiguidade que se manteve ao longo do estudo concretizado entre a prosa perenética e as artes decorativas barrocas; ambas metaforizam uma mesma mundividência barroca, ambas funcionam ao serviço de um objectivo comum, ambas recorrem ao mesmo tipo de estratégias discursivas (nomeadamente o uso do conceito predicável, o recurso permanente à simultaneidade da categoria temporal no conteúdo textual, a tentativa constante de teatralização do espaço religioso em que se manifestam, a omnipresença de um discurso retórico como objectivo da comunicação estética, entre outros).”

Dr.ª Susana Carrusca

 

Os Azulejos da Igreja de São Lourenço

 

A mais antiga referência à igreja de São Lourenço de Almancil surge em 1672 no Livro da sua freguesia (São João da Venda). A traça do templo, de nave única com altares laterais e capela-mor coberta por cúpula esférica, deverá remontar ao final do século XVII ou princípios do seguinte, uma vez que os painéis de azulejo, que revestem integralmente o templo, apresentam a data de 1730.

Se o exterior da igreja é relativamente sóbrio - alçado principal rematado por frontão triangular e pórtico de linhas rectas, ao qual se sobrepõe um janelão de frontão interrompido -, o interior vive do brilho cerâmico dos azulejos azuis e brancos, de tal forma que Santos Simões a definiu como "igreja de louça" (SIMÕES, 1949, p. 2). De facto, o revestimento é interrompido, somente, pela cantaria que define o arco triunfal, e pelo brilho dourado da cimalha que percorre o templo e do retábulo-mor, em talha dourada de Estilo Nacional.

A importância da obra fez com que o seu autor assinasse e datasse os painéis. Assim, sabemos que foram executados em 1730 por Policarpo de Oliveira Bernardes (um dos expoentes máximos do intitulado "ciclo dos Grandes Mestres"), e encomendados pelo Vigário Geral, Reverendo Doutor Manuel de Sousa Teixeira. Contudo, a autoria dos painéis das paredes da nave tem vindo a ser contestada e atribuída a um outro autor, ainda não identificado, mas próximo de Bernardes (MECO, 1989, p. 84).

Os oito painéis da nave representam cenas da vida de São Lourenço, sendo que os pilares exibem um conjunto de alegorias às Virtudes - Liberdade, Pobreza, Castidade, Obediência, Piedade, Paciência, Temor a Deus, Entendimento, Humildade, Preserverança, Justiça e Verdade, as duas últimas de dimensões superiores.

Na capela-mor encontram-se novamente cenas alusivas à vida de São Lourenço, orago da igreja. Este, foi martirizado em Roma no ano de 258, por ter ousado desafiar o imperador Décio ao não devolver o tesouro da igreja de que era diácono. Na realidade, São Lourenço distribuíra o ouro pelos pobres e nada sobrara para o Imperador, que furioso o mandou flagelar com varas, queimar as costas com um ferro quente e, por fim, estender-se sobre um manto de brasas (RÉAU, 1997, vol. 4, p.255). Na cúpula, que assenta sobre trompas onde figuram anjos com símbolos do martírio, São Lourenço é conduzido ao céu.

Estamos, pois, em presença de um programa iconográfico que articula a temática da nave com a da capela-mor, ao realçar, não apenas a vida e caridade do santo, mas também as virtudes através das quais se alcança a santidade e, por conseguinte, a vida para além da morte. Nas cúpulas, e para além da experiência adquirida noutras obras suas e de seu pai (António de Oliveira Bernardes), este pintor de azulejos tira partido dos efeitos cenográficos, que denotam o eventual recurso a tratados de cenografia e perspectiva, mais eruditos (ARRUDA, 1989, p. 25).

 (Rosário Carvalho)

Na opinião de José Meco, os painéis das paredes da nave, onde se inclui esta cena do martírio de S. Lourenço, não são da autoria de Policarpo de Oliveira Bernardes. Atribui-os a um colaborador individualizado do ciclo joanino que trabalhou segundo o programa decorativo daquele mestre.

Atendendo a que o contrato notarial foi realizado no dia 16 de Novembro de 1729 e determinava que os azulejos estivessem todos assentes na Primavera seguinte de 1730, parece evidente que os irmãos Manuel e Antão Borges, profundos conhecedores do meio artístico lisboeta, adquiriram a maior parte a Policarpo de Oliveira Bernardes e a restante a outra oficina de azulejaria, eventualmente próxima daquele pintor.

Nos princípios do século XVIII a pequenina ermida tardo-medieval de S. Lourenço encontrava-se quase arruinada, já sem portas.

No dia 22 de Setembro de 1722 os moradores deste lugar encontravam-se desesperados com falta de água e quando afundavam um poço, imploraram o patrocínio do Santo, prometendo construir um novo templo. Talvez "por destino do Santo", receberam um tão grande benefício que de imediato " abriu um anel de água tão copiosa ".

A partir de então a confraria de S. Lourenço dos Matos cresceu de importância, passando a ter como Juiz Protector uma das mais altas individualidades da região algarvia, o Dr. Manuel de Sousa Teixeira, Vigário Geral do Bispado.

Com as esmolas dos fiéis começou-se a construir "um primoroso templo, não pela grandesa, mas pelo ornato, asseio e magnificência", destacando-se a utilização de valores da arquitectura vernacular compensados interiormente por uma exuberante ornamentação.

Os dois irmãos Borges, naturais de Lisboa, o Antão, mestre pedreiro, morador em Faro e o Manuel, mestre de azulejo, residente em Lisboa, devem ter assumido a construção da igreja, já com o objectivo de a revestirem de azulejaria. Estes dois artistas foram responsáveis no Algarve por diversas obras, de que se destacam em Faro, o revestimento azulejar da Igreja da Ordem 3ª de S. Francisco e a construção do coro alto da Sé.

Em Novembro de 1729 estes mestres comprometeram­-se com o já referido Dr. Manuel de Sousa Teixeira a arranjar os azulejos para o novo templo e a assentá-los com a maior brevidade. Os azulejos da abóbada da nave e da capela-mor, incluindo a cúpula, foram feitos, em 1730, por Policarpo de Oliveira Bernardes. No entanto, o contrato notarial foi celebrado entre o Juiz da Confraria e os irmãos Manuel e Antão Boges, comprometendo-se estes últimos "a darem por sua conta todo o azulejo necessário para se azulejar a capela do Santo, tanto paredes como a meia laranja e assentar o dito azulejo (...) com toda a perfeição possível (...) e da melhor pintura que poder ser".

O retábulo e a restante talha deve ter sido concebida e executada, por volta de 1735, pelo melhor artista da região, o mestre Manuel Martins.

O douramento foi somente contratado, no dia 16 de Fevereiro de 1742, pelos pintores algarvios Clemente Velho de Sarre e Francisco Correia.

O terramoto de 1755 quase não se fez sentir, tendo somente caído cinco azulejos do alto da abóbada.

Nas paredes laterais deste templo há oito painéis figurativos alusivos à vida de S. Lourenço. Os dois da ousia representam o Santo a distribuir pelos pobres os bens que a Igreja lhe confiava para este fim e um milagre feito junto ao rio Tibre, em que restitui a vista a dois cegos.

Os seis painéis da nave da igreja apresentam-se por ordem cronológica, com início no lado da epístola, junto à capela-mor e prolongam-se no lado do evangelho a partir da porta.

1º - S. Lourenço dialoga com o Papa Sisto, quando este ia ser martirizado, lamentando-se de não ir com ele. O Pontífice anima-o dizendo que três dias depois seria a sua vez.

2º - O Santo é preso e acusado de possuir grandes riquezas, tratando-se contudo das esmolas que o Papa Sisto lhe mandava distribuir pelos pobres.

3º - S. Lourenço apresenta ao imperador romano, Valeriano, os tesouros da Igreja, isto é, os pobres.

4º - O Santo é intimidado a renegar a fé em Cristo e a aceitar os deuses romanos.

5º - S. Lourenço é colocado sobre uma grelha para ser queimado a fogo lento a fim de ser maior o seu suplício, esperando que ceda perante a dor.

6º - O Santo é confortado no seu martírio por um anjo de Deus, que leva a sua alma ao céu.

Os fiéis, nos meados do século XVIII, afluíam em maior quantidade à ermida de S. Lourenço na antevéspera e na véspera do dia de festa do Santo (10 de Agosto). Mais de duas ou três mil pessoas deslocavam-se em romagem "não só pela devoção de verem a S. Lourenço, como pela grandesa da sua festividade e fogo que arde na noite do Santo e além disto pelos muitos bailes e descantes da gente que ali acode".

É de realçar na cena da coroação de S. Lourenço, tema do painel central da abóbada da nave, uma técnica bem característica de Policarpo em que as "sombras e marcas mais carregadas de azul são obtidas através do cruzamento perceptível de pinceladas distintas" (José Meco).

A decoração da sacristia fez também parte da remodelação realizada neste templo no 2° quartel do século XVIII. As paredes foram revestidas com um grande rodapé de azulejos com motivos ornamentais barrocos: folhagem de acanto, albarradas, etc..

Na parte central foi colocado o mais interessante arcaz barroco de toda a região algarvia, sobressaindo a ornamentação em talha das portas, dos gavetões e do espaldar. Este último abrigava a imagem procissional do padroeiro.

Tal como a talha da igreja, o arcaz e a imagem procissional de S. Lourenço devem ter sido feitos pelo mestre entalhador e escultor farense Manuel Martins.

S. Lourenço

Localização: Rua da Igreja, Almancil, Loulé 37° 4' 56.07" N 8° 0' 32.36" W

Festas: São Lourenço (fim de semana de Agosto mais próximo do dia 10); São Luís (primeira semana de Fevereiro), no sítio de S. João da Venda

Visitas:                        De Segunda . 15:00 às 17:00

Terça a Sábado das 10:00 às 13:00 e das 15:00 às 17:00 (Hora de Inverno) 18:30. (Hora de Verão) – A visita é paga 

Modificado em terça, 04 junho 2013 17:02

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